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A doença do século XXI

A ansiedade é gerada pela maneira que lidamos com o tempo. O tempo curto para a realização das atividades que se acumulam no cotidiano, o tempo passado julgado como improdutivo e mal aproveitado ou mesmo o tempo presente não desfrutado.

"Foi devido a doença da minha mãe. Quando ela estava internada e sempre que eu sabia que o diagnóstico piorava, corria para a lanchonete", conta Adeliane Nogueira, de 30 anos, que há dois sofre de ansiedade. Adeliane lembra que toda vez que sabia do estado de saúde de sua mãe sentia uma ansiedade intensa que era controlada quando comia. "Era uma necessidade de estar direto mastigando". Nessa época, ela engordou mais de 30 quilos. Hoje, em tratamento, já perdeu metade.

Embora já existisse no homem primitivo, caracterizando-se mais como uma emoção do que um transtorno, o caráter imediatista da sociedade contemporânea faz com que os casos de ansiedade sejam cada vez mais recorrentes. A ameaça à estabilidade, seja no trabalho ou em casa, o contato com o novo, a insegurança social, a ambição, a competitividade, os sentimentos de culpa são algumas das causas de ansiedade, que é um sentimento humano, mas pode se tornar uma doença quando o homem perde o seu controle.

Segundo a psicóloga e professora do Curso de Psicologia da Unifor, Denise de Lima, a ansiedade está relacionada a qualidade de vida da pessoa. "Se a vida dela é muito conturbada, tende a desenvolver ansiedade, que é produzida pela relação que a pessoa tem com o ambiente em que vive", ressalta.

Pode existir uma relação concreta para a pessoa estar reagindo à vida com ansiedade, como, por exemplo, quando há estresse provocado por algum acontecimento no trabalho ou em casos de doença com a própria pessoa ou alguém da família. Entretanto, existem situações de ansiedade em que não se detecta nenhum motivo aparente, inclusive nenhuma doença física que possa justificar tal estado emocional. Nesses casos, os sintomas surgem espontaneamente, muitas vezes sob a forma de ataques de ansiedade e ataques de pânico.

 

Foi assim que a pedagoga Flávia Teixeira, de 24 anos, sofreu seu primeiro ataque de pânico a três anos. Flávia estava sozinha em casa quando teve a sensação de morte iminente acompanhada de taquicardia e sudorese. "De repente, meu coração acelerou. Telefonei para o meu namorado e pedi que ele viesse correndo", conta. Flávia conta que logo melhorou quando seu namorado chegou para vê-la. Dois dias depois os sintomas se repetiam, desta vez, bem mais acentuados: "Tinha a certeza que iria morrer, fui para o hospital e o médico, após me examinar, disse que eu não sofria do coração, meu problema era síndrome do pânico", rememora.

Flávia diz que após ter os primeiros ataques de pânico, deixou de frequentar festas e lugares que reúnem muita gente. O problema foi diagnosticado como Agorafobia. "Temo ter ataque de pânico e depender de outros", confessa. Hoje, em tratamento com medicamentos e psiquiatria, ela deduz que o seu perfeccionismo foi a principal causa da síndrome do pânico.

Psiquiatricamente, o diagnóstico de quaisquer transtornos de ansiedade (como síndrome do pânico e o transtorno obsessivo-compulsivo) dá-se a partir do estudo histórico de casos de doenças psiquiátricas na família, através das condições sociais e relações pessoais do paciente, abuso de álcool e outras substâncias, além de analisar o histórico de manias e se tem doênças associadas à ansiedade.

Para a psicóloga e professora de Yoga, Ana Cláudia Dutra, a ansiedade é hoje tão recorrente devido a dinâmica da sociedade contemporânea. "A maioria das pessoas que tem algum transtorno ansioso têm personalidade forte, são muito competitivas e apressadas, não admitem erros, querem tudo pra 'ontem'", afirma.

Terapia holística

Atualmente, a psiquiatra e a psicologista não são os únicos meios que as pessoas buscam para controlar a ansiedade. A terapia floral, a yoga e a meditação são bastante requisitadas para o tratamento desses transtornos. É com a terapia floral que Adeliane Nogueira busca aliviar a sua ansiedade. "A terapia floral trabalha a sensibilidade, é assim que hoje eu consigo parar e pensar". Ana Cláudia Dutra, que além de yoga, trabalha com florais, classifica a terapia com o uma medicina energética. Por meio dela, Ana Cláudia disse que é tratada a personalidade de alguma pessoa ou algum momento da personalidade para que, assim, a doença seja tratada. Mas são os exercícios de respiração da yoga, os chamados pranayamas, que combatem diratamente a ansiedade segundo Ana Cláudia. "Quando se está ansioso, respira-se e inspira-se muito rapidamente, é uma respiração curta e, então, não é profunda. No trabalho respiratório da yoga, o paciente vai respirar mais lentamente, soltando o ar, isso vai levar a um desaceleramento do nível de ansiedade", explica.

A meditação no tratamento da ansiedade é também apontada como eficaz e tem sido alvo de muitos estudos no Brasil e no exterior. Para a terapeuta holística Ma-Deva Yoko, a meditação produz um relaxamento que vai eliminar "o desejo latente de resolver tudo do dia pra noite". Ela disse que a ansiedade faz com que a pessoa deseje o futuro para querer sair daquela situação do transtorno e para resolver suas inúmeras atividades no trabalho ou em casa, ou mesmo o saudosismo, relembrando que tudo antes era melhor. "A meditação, através do autoconhecimento, vai focar a atenção da pessoa para o agora, você vai ficar mais com você mesmo e, assim, terá uma relação de mais confiança com a vida", ressalta. Ainda segundo Ma-Deva, a meditação também melhora a respiração e a paciência.

Para a psicóloga Denise de Lima, a yoga, a terapia floral e a meditação são recursos complementares no tratamento de ansiedade, principalmente, em casos em que é crônica. "Quando a pessoa sofre d ansiedade crônica, ela tem que passar também por um tratamento psicológico e por meditação, para logo reduzir o nível de ansiedade', argumenta.
Os transtornos de ansiedade

Transtorno Obsesseivo Compulsivo (TOC)
Pensamentos intrusivos e comportamentos repetitivos com o intuito de afastar a ocorrência de ameaças obsessivas. O principal prejuízo é no bem-estar psicosocial.

Fobia social
Medo excessivo e irracional em público: o indivíduo teme agir de modo humilhante e embaraçoso. Mais da metade das pessoas que sofrem desse transtorno tem depressão.

Ansiedade generalizada
O transtorno mais comum. Ansiedade e preocupação exagerados, agitação, tensão muscular, fadiga, perturbações no sono e dificuldade de concentração.

Síndrome do pânico
Sensação de perigo ou de morte inimente. O ataque de pânico é espontâneo e dura, no máximo, 10 minutos. Os casos duplicaram em relação a década de 80, hoje em 4% da população mundial desenvolve a doença.

Mulheres estão mais propensas

Segundo Anxiety Disorders Association of America, em pesquisa realizada nos Estados Unidos, um em cada oito americanos entre 18 e 54 anos, sofre de algum tipo de transtorno de ansiedade. Além disso 60% das pessoas que sofrem de ansiedade são do sexo feminino, com idade de 20 e 45 anos.

Para Denise de Lima, a mulhes está exposta a mais situações que propiciam ansiedade do que os homens. A mulher de hoje, além de construir família, trabalha e tem uma vida social agitada: "A mulher tem que dar conta de várias atividades ao mesmo tempo, numa condição estressante que pode gerar ansiedade". Para Denise, isto é também uma questão de genética: "Mulheres mais ansiosas foram selecionadas ao longo da história", esclarece.
Diana Suassuna, professora de Yogaterapia Hormonal, diz que a maioria de seus pacientes que sofrem de ansiedade são mulheres: "Cada emoção está relacionada a um hormônio. E como a mulher passa por distúrbios hormonais é complicado manter equilíbrioemocional", afirma. É na tensão pré-menstrual (TPM) que as mulheres se sujeitam a desenvolver o transtorno de ansiedade, principalmente, quando são enfrentadas situações novas e estressantes. "É um período de disfunção hormonal, mas se trabalhando com exercícios de respiração da yoga, os sintomas da TPM podem ser amenizados", esclarece Diana, que há nove anos se dedica a Yogaterapia para revitalização hormonal.

Ansiedade e depressão
Uma das consequências da ansiedade, principalmente se não for tratada, é evoluir para um quadro de depressão. Ansiosa, uma pessoa passa a evitar diversas situações e pode acabar perdendo a sociabilidade, podendo ocasionar num estado depressivo. "A depressão é um transtorno de humor e se uma pessoa que sofre de ansiedade perder o contato social pode se tornar depressiva', aponta Denise de Lima, mas no caso de depressão evoluir para uma ansiedade é mais difícil. A psicóloga diz que uma pessoa deprimida é apática e não enfrenta situações novas que possam lhe causar situações do cotidiano e desenvolver depressão", ratifica.